segunda-feira, 11 de abril de 2011

As moedas do futuro, Ernesto Lozardo para o Valor

O poder da moeda sempre esteve ligado ao poder econômico da nação. Até o início do século passado, a libra esterlina foi a moeda de reserva de valor no mercado internacional. Daí em diante, o dólar americano tornou-se a moeda líder para a estabilidade do sistema de pagamentos internacionais, como foi estabelecido no acordo de Bretton Woods (1947-1971).
Isso se deveu à liderança econômica dos Estados Unidos no período pós-guerra, o qual ficou conhecido como a era dourada do crescimento econômico mundial. Na época, o país produziu quase 50% do PIB mundial, foi responsável por 85% do total dos investimentos diretos internacionais, possibilitou a reconstrução da Europa, contou com poupança superior à demanda de investimentos domésticos, superávit nas contas públicas e na conta corrente e construiu-se um grandioso e sofisticado mercado financeiro.

Essas condições já não existem há décadas. Os Estados Unidos produzem 23% do PIB mundial, responde por 20% do total dos investimentos diretos internacionais, a poupança líquida é mínima. Desde o governo do presidente Reagan (1980), o país apresenta déficit na conta corrente como fator de obtenção de recursos externos para atender à demanda de investimentos. Trata-se de uma sociedade que gasta além dos limites da renda.

O elevado deficit público induz a elevação de impostos, inflação e juros, redução da renda real do trabalhador e dólar mais desvalorizado. Esse deverá ser o cenário da economia americana nesta década.

Os reflexos dessa queda gradual da economia dos Estados Unidos têm influenciado a composição das reservas monetárias internacionais. Em 1973, o dólar representou 85% do total dessa reserva. O marco alemão representou 6,7% e a libra esterlina, 5,9% do total. Em 2009, o dólar americano caiu para 62% no total, uma queda de 23 pontos percentuais. Nesse tempo, surge o euro, que poderá compensar as incertezas da moeda americana, mas não substituí-lo.

O euro representou 27% do total da reserva. O euro ainda não se apresenta como alternativa, mas pode-se traçar um cenário com mais de uma moeda nas transações comerciais. Embora não se conheça o comportamento das moedas de países emergentes nas reservas e nas transações internacionais, pode-se prever o papel de liderança de moedas de países emergentes nas transações financeiras e comerciais futuras.

A história não confirma essa hipótese, porém a realidade mundial é distinta da que prevaleceu no período do acordo de Bretton Woods. Existirão outras moedas nas transações internacionais: além do dólar, teremos o euro, o renminbi, a rúpia e o real.

Outras nações alcançarão elevado grau de prosperidade ao longo deste século pondo fim ao monopólio do dólar

A previsão é de que, em 2050, a economia dos Estados Unidos representará 12% do Produto Interno Bruto (PIB) global; a da China, 22%; a da União Europeia (27 países), 10%; a da Índia, 7%; e a do Brasil, 4%. Isso não significará enfraquecimento do dólar nas transações internacionais, mas o fim do monopólio da moeda americana pelo fato de que outras nações alcançarão elevado grau de prosperidade ao longo deste século.

O euro está sendo objeto da reserva monetária entre os países da região. A rúpia (Índia) e o renminbi (China) já são moedas de reserva entre países asiáticos. O real será a moeda líder na América do Sul e estará no conjunto das reservas de moedas dos países que tenham comércio com o Brasil.

Será comum bancos aceitarem depósitos em moedas internacionais, por exemplo, em euro, e emprestarem renminbi ou vice-versa. Provavelmente, também teremos uma nova moeda representada por uma cesta de moedas de países emergentes, tendo o dólar e o euro como integrantes dela. Essa deverá ser a nova arquitetura monetária, que dependerá de uma profunda reforma no sistema financeiro internacional e de amplo processo de abertura econômica entre nações desenvolvidas e emergentes.

Acredito que a moeda brasileira poderá figurar entre as que farão parte das transações internacionais. Para tanto, há de se fazer a reforma tributária, tendo em vista a flexibilidade, a redução do percentual das alíquotas sobre a produção e a folha de pagamento, bem como sobre a renda social da classe média. Esse balizamento de carga tributária deverá ser compatível com a existente entre os emergentes. A meta de curto prazo de se eliminar a miséria está correta. No médio prazo, deve manter-se, como estratégia, maior abertura econômica e prover o país de infraestrutura adequada, tornando-o mais eficiente e competitivo. Isso não é um sonho, mas uma oportunidade factível.

A história de que o câmbio mata uma nação não passou de uma crítica à inconsistência da política monetária e fiscal da época. A taxa de câmbio em si não tem esse poder devastador. No entanto, a fragilidade dos fundamentos macroeconômicos, a dívida pública crescente e o regime tributário adverso causam danos irreparáveis ao progresso de uma nação.

O século XXI será de aprofundamento nas relações multilaterais com base em uma nova ordem monetária, na qual várias moedas coexistirão, integrando países em regiões comerciais. O real será moeda utilizada nas transações comerciais entre seus parceiros emergentes globais.

O Brasil, portanto, precisará estar preparado para enfrentar esse novo mundo financeiro, comercial e de moedas globais. Os bancos residentes terão a missão de promover o Brasil na economia financeira global. A política econômica deverá assegurar a estabilidade do crescimento real da renda das pessoas, a redução contínua do custo da produção nacional, o aumento da produtividade da mão de obra, a capacidade competitiva global de todos os setores produtivos e a plena distribuição da renda. Nada disso é impossível ou improvável.

A crença nessas possibilidades está alicerçada na história recente desses países: União Europeia, Brasil, China, Índia e vários do Pacífico Asiático estão construindo seus sonhos de nação em um mundo global, enquanto que os Estados Unidos terão de reconstruir um novo sonho para sua liderança.

Ernesto Lozardo é professor de Economia da EAESP-FGV e autor de "Globalização: a certeza imprevisível das nações".

segunda-feira, 28 de março de 2011

As viúvas da Alca erram o alvo, artigo de Sérgio Leo, jornal Valor ( 28/03/2011)

Viúvas da Alca erram o alvo
Sergio Leo


Avisita de Barack Obama ao Brasil teve um efeito sobrenatural entre alguns analistas da política externa brasileira: ressuscitou a discussão sobre a Área de Livre Comércio das Américas, Alca, a fracassada tentativa de criar um bloco comercial entre países dos três subcontinentes americanos. Foi uma oportunidade perdida, acusam esses analistas, ao apontar o fiasco das negociações como demonstração do sentimento antiamericano que teria movido o governo anterior. É uma análise tão equivocada quanto perigosa, porque desvia as atenções sobre as verdadeiras causas do mau desempenho do comércio com os Estados Unidos.

As dificuldades para encontrar argumentos coerentes na defesa da Alca como oportunidade perdida, levam defensores da tese até a apontar os exemplos do Chile e do Peru como demonstração do "erro" brasileiro. Enquanto o Brasil, de 2003 a 2010, aumentou em 35% suas vendas aos Estados Unidos, as exportações do Chile aos Estados Unidos cresceram quase 90% e as do Peru, mais de 110%. Impressionantes, os números refletem a pauta de exportações dos três países. Mais do que o poder mágico dos acordos de livre comércio, foram as características dessa pauta que orientaram o aumento das vendas aos americanos.

Brasil tem nos EUA um grande comprador de manufaturados
Segundo dados do U.S. Census Bureau, o Chile, em 2002, concentrava 40% de suas vendas aos Estados Unidos em apenas dois tipos de produtos: frutas e cobre, que agora somam 52% das vendas totais. É indício de concentração da pauta de exportações chilena, e não da saudável diversificação esperada com o acordo de livre comércio assinado em 2004 e posto em vigor anos depois.

As vendas de frutas e cobre, apenas, subiram quase 200% entre 2002 e 2010. Em termos absolutos, o resultado equivale a 70% do notável crescimento das vendas do Chile aos Estados Unidos. São ridículos, da casa de dezenas de milhares de dólares ou de quase US$ 100 mil os aumentos na venda de outros produtos.

No Peru, a pauta de exportações é mais desconcentrada, mas os produtos primários como petróleo, minerais (especialmente ouro) e frutas, principalmente azeitonas, somam 77% do total. O país tem recorrentes déficits no comércio com os americanos desde 2008 (assim como o Chile) e suas vendas de US$ 5 bilhões aos EUA cresceram principalmente pelo aumento no volume e preços de petróleo, ouro e, ah, sim, produtos industriais têxteis de casa, mesa e banho (beneficiados por regimes especiais de importação anteriores ao tratado de livre comércio).

Os peruanos têm até indicadores interessantes sobre manufaturados: suas vendas de "outras máquinas industriais" subiram 138%, de US$ 1,1 milhão para US$ 3,2 milhões. O Brasil, sem a Alca, teve de se contentar com aumento de apenas 36%. De US$ 154 milhões para US$ 209 milhões. Aumento percentual pequeno, mas responsável por vendas 1.400% superiores à dos peruanos beneficiados pelo livre comércio, um número que evidencia como podem ser enganosas as comparações desse tipo.

Uma análise pouco ideologizada das exportações dos três países - e de outros que aumentaram as vendas aos Estados Unidos a partir de acordos de livre comércio - mostra que a maioria foi beneficiada pelo aumento dos preços de commodities ou passou a encontrar mais facilidade de vender produtos manufaturados de baixo valor agregado, como têxteis (cujas vendas, aliás, caíram nesses anos recessivos, na relação Peru-Estados Unidos).

Já o Brasil tem, nos Estados Unidos, um de seus maiores compradores de manufaturados, especialmente aviões, motores, sapatos e móveis - esses últimos afetados severamente nos últimos anos pela concorrência chinesa. São o tipo do produto que mais pesadamente sofre o efeito de fatores macroeconômicos como a brutal valorização do câmbio do real em relação ao dólar, que ultrapassou 36% entre julho de 2004 - quando a grama já começava a brotar no túmulo da Alca - e a sexta-feira passada. Em 2004, a tarifa média nos Estados Unidos para produtos industriais era de 4%, dificilmente o maior obstáculo a remover no esforço de exportação aos americanos.

São fatores como o câmbio, a inacreditável tributação sobre exportações, os juros altos e a logística deficiente - além da falta de apetite das empresas brasileiras - as maiores barreiras para as vendas do Brasil aos Estados Unidos. Não são alvo dos acordos de livre comércio, e é sobre eles que se deveriam debruçar os que pranteiam a Alca falecida.

Já no governo Fernando Henrique Cardoso, quando o Brasil assumiu a co-presidência das negociações, era consenso na diplomacia brasileira que os termos desejados pelos Estados Unidos, adotados nos acordos com Chile, Peru, México e companhia, não serviam aos interesses do país. O que o governo seguinte, de Luiz Inácio Lula da Silva fez, com base na experiência do ministro Celso Amorim na Rodada Uruguai da Organização Mundial do Comércio (OMC) foi explicitar as discordâncias, para evitar o encurralamento do Brasil no fim das negociações. A estratégia do governo anterior era seguir nas negociações para determinar, ao fim, se o Brasil aceitaria ou não o acordo.

É tema passível de debate o estilo adotado pelos diplomatas designados por Amorim para discutir a Alca, pode-se discutir se foi o melhor ou não. Mas seria mais interessante saber como estariam os industriais e a balança comercial brasileiros, hoje, caso os produtos americanos cotados em dólar desvalorizado competissem no mercado nacional sem tarifas de importação, como ocorreria se a Alca estivesse em vigor. Quem sabe, em vez de comemorar algo além de 36% de aumento nas vendas aos americanos, Dilma teria de sondar, durante a visita de Obama, a possibilidade de baixar salvaguardas contra os manufaturados dos Estados Unidos, como se reivindica atualmente contra os importados chineses.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Entrevista da atriz Juliette Binoche ao jornal Valor

Assim é, se lhe parece
Carlos Helí de Almeida | Para o Valor, de Paris


Juliette em Cannes, ao receber o prêmio de melhor atriz por "Cópia Fiel": "Uso cada pedaço de mim, da minha memória e da minha imaginação no meu trabalho. É por isso que nunca me senti entediada"No meio dos turbulentos momentos que se seguiram à vitória no Oscar de 1997, com a estatueta de atriz coadjuvante por seu desempenho em "O Paciente Inglês", de Anthony Minghella, Juliette Binoche ouviu a pergunta inevitável: "Gostaria de se mudar para Hollywood?" A resposta da atriz francesa hoje soa como uma profecia: "Não, quero trabalhar com Abbas Kiarostami, porque adoro os filmes que ele faz". Depois de um longo e discreto namoro profissional entre Juliette e o premiado realizador iraniano, que rendeu um breve encontro em "Shirin" (2008), os dois finalmente se reúnem em tempo integral em "Cópia Fiel", novo trabalho do autor de "O Gosto da Cereja" (1997), que chega ao circuito brasileiro no dia 18.

O filme descreve o discreto flerte entre uma dona de antiquário francesa (Juliette) e um escritor britânico (o barítono William Shimell) ao longo de um passeio por um vilarejo da Toscana (Itália). Em um café local, os dois são tomados por um casal, engano que não é corrigido por ela e é estimulado por ele. Filmado em longos planos e recheado de diálogos em inglês, francês e italiano, a história traça um paralelo entre o conceito de original e cópia, no universo das artes, com o real e a representação, na vida real. "Deveria haver mais interação como essa entre as culturas, e acho que Abbas é um símbolo disso", elogiou a atriz de 46 anos no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio de melhor atriz.

Valor: A senhora tem uma lista de diretores admirados, que vão sendo riscados à medida que consegue trabalhar com eles?

Juliette Binoche: De jeito algum! A vida não é tão simples assim. A gente tem desejos, sonhos e, algumas vezes, eles podem até acabar se realizando. Na época em que manifestei o desejo de trabalhar com o Abbas, tudo me parecia impossível, porque ele trabalhava somente no Irã, com não atores e na língua dele, a "farsi". Eu não tinha os três requisitos. Quando finalmente o conheci e tive a chance de dizer isso a ele, Abbas nunca disse não, mas também nunca disse sim. Por duas vezes ele chegou a me dizer: "Venha a Teerã". O que, na verdade, me deixou um pouco aterrorizada, por causa do que eu lia nos jornais sobre o Irã. Ficava pensando: "Tenho duas crianças! Serei capaz de levar a minha vida normalmente depois dessa experiência?"

Valor: Mas essa imagem do Irã mudou depois que você filmou sua participação em "Shirin"?

Juliette: Fiquei maravilhada em descobrir como os iranianos são tão receptivos e em como eles estão tão ligados ao que acontece no mundo em cultura, em música, poesia, tudo! É um povo muito hospitaleiro, que desenvolveu uma arte de receber bem com regras bastante específicas. A cultura persa é maravilhosa, muito delicada, e está ligada a uma forma muito espiritual de pensar, que nunca lhe é imposta. Pelo menos na intimidade do lar, porque na rua as mulheres têm que se comportar de uma determinada maneira, é claro. Dentro de casa, as mulheres são como as italianas, muito ágeis e fortes, determinadas e calorosas.

Valor: Kiarostami diz que a senhora fala italiano muito bem, porque já viveu algum tempo no país, além de ter filmado "O Paciente Inglês" lá. Essas experiências lhe foram úteis no filme?

Juliette: O fato de ter a lembrança do ritmo e do som da língua realmente me ajudou a fazer as cenas em italiano, embora não fale mais fluentemente a língua. Como atriz, uso cada pedaço de mim, da minha memória e da minha imaginação no meu trabalho. Tudo está lá em você, são experiências que o alimentam ao longo da vida. É por isso que nunca me senti entediada, porque sei que posso absorver cada momento da minha vida e usá-lo em meu trabalho. É claro que no início fiquei assustada com a ideia de falar outra língua, porque nunca sei se vou conseguir juntar as frases do diálogo, me mover e dar conta das emoções da personagem ao mesmo tempo. Já estou acostumada a interpretar em inglês, porque já faço isso há algum tempo, mas nunca havia atuado em italiano. Em todo caso, é um desafio, e adoro desafios.

Valor: Houve espaço para improvisação?

Juliette: Estava tudo no roteiro, mas adicionei alguns cacos porque não consigo não improvisar. Por exemplo, quando eu e Shimell estamos caminhando na vila e vejo um bebê vindo na nossa direção, eu me viro para ele e digo algo como "que graça de bebê", como uma espécie de flerte. Na sequência em que dirijo o carro a caminho da vila e de repente me surge uma senhora no meio da estrada, que não estava planejado, não resisti e gritei: "Por que ela não sai da minha frente?" Quase não consegui terminar a cena porque estava preocupada com aquela pessoa no meu caminho. Fiquei com medo de que Abbas fosse cortá-la na edição final, mas acabou incorporada ao filme.

Valor: Tiveram tempo para ensaiar?

Juliette: Ensaiamos por duas semanas antes de começar a filmar. Pode parecer pouco, mas é um tempo raro em cinema. Confesso que fiquei preocupada, porque algumas tomadas tinham até dez páginas de texto. Graças a Deus Abbas nos deu os fins de semana livres, que eu usava para decorar as falas. Não haveria outro jeito de fazer o filme daquela forma de filmar, tão rápida.

Valor: A senhora e Shimell dominam a tela do início ao fim. Como foi contracenar com apenas um ator o filme inteiro?

Juliette: Nunca sei no que estou me metendo, e essa é a parte excitante do trabalho, o desconhecido. Cada tomada era uma experiência quase orgástica, de sentir o prazer de terminar um tomada longa, que era quase como um movimento musical. Tenho sorte de Abbas ter confiado em mim. Ele tinha uma ideia muito exata de como seria o enquadramento de cada cena, durante toda uma sequência. Mas, dentro dos limites estabelecidos por ele e pelo diretor de fotografia, a liberdade que me foi dada era muito grande e foi muito bem recebida.

Valor: Sentiu alguma dificuldade em contracenar com um não ator?

Juliette: Na verdade, Shimell jogou o jogo de forma muito fácil. Ele conseguiu superar técnicas de filmagem bastante complexas, decorrentes de filmagem com duas câmeras ao mesmo tempo. Quando nossos personagens se confrontam, estão dialogando, a gente não está reagindo com a expressão nos olhos um do outro, porque nosso foco é a fita colada à câmera oposta a nós. Fiquei surpresa como ele entrou no jogo de sentir a reação do outro personagem sem ver a expressão do interlocutor. Bastava o tom de voz e a percepção da presença do outro ator na cena.

Valor: Sua personagem é quem guia a ação do filme...

Juliette: Sim, ela conduz toda a ação! Isso não é maravilhoso? Porque, às vezes, são as mulheres têm que arrancar as emoções dos homens! (Risos) As mulheres são capazes de despir-lhes de suas carapaças para que se revelem. Somos como deusas do amor, estamos aqui para revelar os homens. Se não fosse pelos homens, como poderíamos ser mulheres?

Valor: Como foi voltar à Toscana, região onde você filmou "O Paciente Inglês"?

Juliette: Voltar lá depois da morte de Minghella [ocorrida em 2008] foi avassalador, porque ainda sinto muitas saudades dele. E também porque a experiência com "O Paciente Inglês" foi especial, iluminadora. Sentir falta de alguém e ver a beleza da paisagem daquela região me fez lembrar muito dele, causou uma sentimento estranho, uma mistura de saudade e carinho. Acho que essas lembranças, essas sensações, me alimentaram durante as filmagens de "Cópia Fiel".

Entrevista do petista Alexandre Padilha, ministro da Saúde, jornal Valor

"Saúde deve mostrar serviço com verba que tem"
Raymundo Costa | De Brasília



Padilha: "O ressarcimento dos planos de saúde ao SUS é uma prioridade que o cartão vai poder acelerar"Antes de pedir mais dinheiro para a saúde, o ministro Alexandre Padilha vai tentar gastar melhor o que tem. Só com isso - acredita - será possível convencer a sociedade a permitir novas formas de financiamento e levar a saúde a padrões de primeiro mundo. Segundo Padilha, o Brasil tem o programa - Sistema Unificado de Saúde (SUS) - que mais faz transplantes e hemodiálises do mundo, e, no entanto, gasta apenas R$ 660 per capita. Isso somados União, Estados e municípios. Só a União investe R$ 304 per capita. Inglaterra e Canadá gastam seis vezes mais. Há dois meses no Ministério da Saúde, Padilha diz que há uma revolução a caminho, que vai desde um novo modelo de construção de unidades de saúde, até a mudança da forma de remuneração dos hospitais. Ele quer regionalizar os atendimentos de saúde. Cobrar compensação dos planos por seus segurados atendidos na rede SUS é prioridade dele e da presidente. Não dá prazo, mas diz que já este mês concluirá a primeira etapa da implantação do Cartão SUS. A seguir, a entrevista concedida ao Valor:

Valor: O problema da saúde é mais de gestão ou de dinheiro?

Alexandre Padilha: Eu não tenho dúvidas de que a gente pode fazer muito mais com o que temos. A prioridade é dupla: investir melhor o que nós temos e ter mais para investir cada vez melhor. Agora eu tenho plena consciência de que no debate com a sociedade, neste momento, a prioridade do ministério é mostrar claramente que pode fazer mais com o que tem, aumentar os controles, ter pactos cada vez mais claros com o que tem e definir melhor suas prioridades, até para a sociedade ter segurança e a economia brasileira poder colocar mais recursos para a saúde para que a gente possa atingir os patamares de outros países. Porque há países em que o investimento no setor é de dez, 11, 12 vezes mais per capita.

Valor: Com atendimento universal?

Padilha: O dos EUA é o que mais investe, é 11, 12 mais, mas é muito privado. Canadá e Inglaterra, seis, sete vezes mais. No Brasil, a saúde suplementar é quase três vezes maior que a saúde pública per capita. Mas atende a 45 milhões de pessoas. O SUS, teoricamente, atende 190 milhões, mas, na prática, responde por 150 milhões. O investimento per capita da saúde suplementar é quase três vezes mais o per capita da saúde pública.

Valor: O senhor vai retomar o projeto das fundações estatais para gerenciar a saúde?

Padilha A prioridade é o aprimoramento da gestão do SUS. Acho um grande erro misturar aprimoramento das gestão, com modelo gerencial administrativo.

Valor: O que precisa para que os hospitais públicos tenham o padrão da rede Sarah Kubitschek?

Padilha: Temos alguns hospitais públicos do mesmo padrão. Alguns hospitais universitários. A rede Sarah Kubitschek é uma rede que nos orgulha a todos. É uma rede em parte é financiada com recursos públicos. Tem excelência na gestão.

Valor: É uma fundação. O senhor é contrário a esse modelo?

Padilha: Só não acho que essa seja a centralidade do debate do modelo de gestão. São alternativas gerenciais importantes. Nós precisamos compreender o SUS. O sistema brasileiro é formado por modelos gerenciais diversos. Isso é a riqueza do SUS. Eu sou favorável a qualquer modelo gerencial que cumpra suas diretrizes. No SUS você tem hospitais só estatais de altíssima qualidade, e hospitais só estatais que não são nada públicos, são quase privados. São tão privados quanto hospitais privados, com trabalhadores poucos valorizados. No SUS você tem fundações de altíssima qualidade que seguem as diretrizes do SUS e você tem fundações de baixíssima qualidade na execução. Você tem modelos novos de PPPs, de alta qualidade assim como de baixa qualidade. Precisamos é aprimorar a gestão do SUS na definição da prioridades para investimento.

Valor: Quais são essas prioridades?

Padilha: Às vezes há recurso, investimento, equipamento e estrutura, mas o processo de trabalho na unidade faz com que o atendimento seja de baixa qualidade.

Valor: Por que?

Padilha: A unidade precisa ter uma agenda aberta para o acesso. Há unidades de saúde que têm equipamento, estrutura e profissionais, mas funcionam com a agenda fechada, não acolhem quem chega. Quando acolhe, não faz análise de risco. Então, quem está em situação grave tem o mesmo cuidado e prioridade de quem não está, fica no mesmo lugar, não tem espaço de organização para cada um deles.

"Mais do que implantar fundações precisamos que as unidades estejam abertas a acolher quem chega"
Valor: Como será a mudança na gestão?

Padilha: A prioridade, em gestão, é ter instrumentos mais sólidos no contrato entre União, Estados e municípios. Que este contrato seja fruto do que nós estamos chamando de mapa sanitário regional.

Valor: O que é esse mapa?

Padilha: É preciso regionalizar a saúde no país. Esse mapa vai definir qual o território necessário para compor uma rede que vai da atenção básica até uma certa complexidade. Nesse território tem vários gestores. A gestão pura municipal, outro é um hospital estadual, outro, um hospital filantrópico credenciados do SUS. Então você tem vários modelos gerenciais no espaço regional. A nossa centralidade é a gestão das redes no espaço territorial, é isso que pode melhorar a qualidade de saúde do país.

Valor: Como centralizar a gestão?

Padilha: Fazendo os contratos entre Estados e municípios a partir da realidade regional com objetivos e metas claras a serem cumpridas e acompanhadas.

Valor: Fácil assim?

Padilha: Junto com isso pensamos em criar um indicador nacional de garantia de acesso que tenha expressão regional e, de certa forma, tenha o que o SUS oferta para as necessidades de saúde daquela região, o que consegue resolver naquela região. Em que medida o acesso é de qualidade e do nível de satisfação do usuário. Precisamos de um indicador de satisfação do usuário. Isso para compor um grande indicador nacional que pode ter a expressão regional, a expressão estadual e que seja um marcador para a melhoria da saúde para aquela região, para aquele Estado.

Valor: Para que serviria esse indicador?

Padilha: Por exemplo, uma região hoje é nota dois. Nós queremos que em quatro anos ela chegue a cinco. Por esse indicador, União, Estados e municípios definirão a estratégia para que essa região chegue aos cinco.

Valor: A presidente Dilma diz que antes é preciso saber "para quê" vai se pedir mais dinheiro para a Saúde. O senhor sabe?

Padilha: A prioridade são essas duas grandes portas de entrada do SUS: atenção básica e a porta da urgência e emergência. A atenção básica, para ser resolutiva, precisa ter o suporte permanente da atenção especializada.

Valor: Como assim?

Padilha: O médico que está no centro de saúde tem que analisar seu diagnóstico com um médico da atenção especializada fazendo uso da telemedicina. Isso significa reestruturar fisicamente a unidade básica de saúde. É preciso renovar o padrão construtivo das unidades de saúde do país. A vida média dos nossos hospitais é de 35, 40 anos. São construídos no padrão de uma medicina que não existe mais. Por exemplo: a realidade das urgências e emergências. A grande maioria foi construídas quando as urgências e emergências eram um espaço pequeno, a centralidade nos hospitais eram os leitos de internação crônica, de longa duração. Salvavam-se poucas vidas na urgência e emergência. Isso mudou nos últimos 15 anos. Então você tem de mudar todo o padrão construtivo das urgências e emergências do país, para garantir equipes estejam lá, quando forem demandadas, mas também assegurar a relação desta unidade com a atenção hospitalar de média complexidade.

Valor: Como seria esse espaço?

Padilha: A ideia é ter urgências e emergências amplas. Em rede. Na atenção básica tem uma sala de observação, é o primeiro atendimento. No meio do caminho tem uma Unidade de Pronto Atendimento e o transporte seguro, que é o Samu. É preciso ter uma unidade de urgência e emergência hospitalar em que a entrada seja ampla, faça classificação de risco, diga quem é de risco alto, vermelho, quem é de risco intermediário, amarelo, quem não é de risco. Haverá também o leito de retaguarda. Um dos problemas da urgência lotada não é que as pessoas não estejam sendo atendidas. Falta um leito de retaguarda para encaminhar essa pessoa.

Valor: Onde se poderia justificar novos recursos?

Padilha: O acesso ao que tem de mais alta complexidade. O Brasil hoje tem um déficit importante de cirurgia de ortopedia. Seja de cirurgia de urgência e emergência de trauma, que é decorrente de acidente, seja de reabilitação. Há também uma população cada vez maior de acesso a medicamentos de alto custo, quimioterápicos, radioterápicos, que impactam fortemente a realidade de saúde. Isso é de alto custo. O Brasil é o país que mais faz transplante público no mundo, o que tem a maior rede de hemodiálise totalmente pública no mundo. Gratuita, universal.

Valor: Com dois meses no cargo, já deu para identificar os principais gargalos da saúde?

Padilha: Um é esse: os mecanismos de contratualização entre União, Estados e municípios. É um gargalo importante, fundamental. Ou seja, os instrumentos que definem os repasses entre União, Estados e municípios, e que estabelecem metas de compromisso e que induz financeiramente e premia quem cumpre meta. Outra prioridade é a definição do que compõe uma rede de atenção à saúde.

Valor: Por quê?

Padilha: O processo de construção do SUS foi um processo de descentralização para os municípios. Se jogou muito peso no processo de descentralização e menos nas outras diretrizes fundamentais do SUS que são o acesso e a integralidade, ou seja, dar para a pessoa o cuidado integral.

Valor: A saúde suplementar atende mais de 45 milhões de pessoas, que também se servem da rede pública. Quando é que os planos de saúde vão começar a ressarcir o SUS? Isso também não é financiamento da saúde?

Padilha: Esse ressarcimento é prioridade nossa. Nós primeiro precisamos aprimorar as informações que o SUS tem dos atendimentos dos planos de saúde para que se possam estabelecer metas de ressarcimento. A ideia do Cartão Nacional de Saúde, conhecido como o cartão SUS, também é pra isso. Ele é fundamental para reorganizar o sistema. É nossa prioridade, é prioridade da presidenta.

Valor: Qual é a parcela dos usuários dos planos atendida pelo SUS?

Padilha: Há várias estimativas e aproximações. Algumas unidades hospitalares dizem que chega a 15%, 20%, mas hoje não se tem esse dado com precisão. O que se tem hoje é uma estimativa que varia de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão por ano, mas são estimativas. O que se sabe muito claramente é que em geral é muito comum quem tem plano de saúde se utilizar do SUS na urgência e emergência. É muito comum também para o uso do medicamento mais caro, quimioterápico, radioterapia que o plano não cobre, transplantes, cirurgias com alta tecnologia. Isso é muito comum. O ressarcimento é fundamental para compensar, e, mais do que isso, para identificar cada vez mais quais são os pontos de complementariedade. A partir da definição desses pontos é possível construir uma agenda comum de organização dos serviços.

Valor: Como o senhor pretende convencer os planos de saúde, que resistem a fazer ressarcimento?

Padilha: Há uma disputa, inclusive de questões legais. São questionamentos não sobre a lei, que estabelece limites para o mecanismo de ressarcimento. Mas há um interesse também da saúde suplementar de que essa complementariedade seja mais clara. Nós estamos conversando.

"Precisamos de um indicador de satisfação do usuário para compor um índice nacional que sirva às metas da saúde"
Valor: Já existe um cronograma para a implantação do cartão?

Padilha: Fechado não. Nós estamos fechando agora um diagnóstico de quais são os municípios que já usam hoje. Vários municípios já usam o número do cartão SUS para a organização e gestão de seus serviços. Esse diagnóstico fica pronto agora na metade de março. São cerca de 700 municípios. Não necessariamente têm um cartão. Às vezes usam só o número que está cadastrado. Há quase 100 milhões de pessoas cadastradas com o registro do número SUS. Tem 130 milhões de pessoas cadastradas e 100 milhões de cadastros limpos, higienizados de um número do cartão SUS. São Paulo usa o número do cartão SUS para toda a rede básica do Estado. Diadema (SP) usa para tudo: básica, média e alta complexidade e Belo Horizonte (MG) também.

Valor: Então o cartão sai este ano, depois de oito anos e dois governos de discussão?

Padilha: Não dou prazo. O Conselho Nacional de Saúde já discutiu o assunto ano passado.

Valor: O senhor vai primeiro tentar o acordo com a saúde suplementar para ter mais recursos ou o aumento do financiamento via CPMF ou CSS?

Padilha: Eu não vou discutir fonte de financiamento. Meu esforço é aprimorar a gestão para fazer mais com o que nós temos para que o crescimento da economia seja generoso com a saúde no país. Agora uma coisa não tem relação com a outra. O ressarcimento não resolve o problema do financiamento do SUS. O ressarcimento é muito mais que uma compensação pelo uso - ele permite identificar complementariedades entre o SUS e a saúde suplementar.

Valor: O senhor vai reajustar a tabela SUS como reclamam os hospitais?

Padilha: Estou convencido de que nós precisamos apostar num novo modelo de financiamento dos procedimentos da saúde. Todas as experiências mostram que se você puder fugir do modelo de remuneração por procedimento e passar para um modelo de remuneração por pacote - diagnóstico, tratamento e qualidade de serviço, sobretudo alta - você tem resultados e utilização melhor dos recursos. A grande demanda que os hospitais fazem em relação à tabela SUS não é só se vai ou não reajustar, mas discutir qual é o perfil assistencial de cada um desses hospitais. E você sai comprando procedimento pontual em cada hospital. Em vez de pagar procedimento, eu prefiro contratar 20, 30 leitos, blocos de leito, contratar as equipes desse hospital.

Valor: Pelo visto, logo vamos ter um Plano Nacional de Saúde.

Padilha: Ah, isso também!

Valor: Como está sua relação com os governadores da oposição?

Padilha: Ótima. Com todos os da oposição. Um grau de convergência grande tanto com os da base [de apoio ao governo] quanto com os da oposição. Todos sentem na pele a escassez da falta de médico onde se precisa, da distribuição de médicos, da necessidade de reestruturação física das unidades, de se pensar novos modelos da contratação e remuneração de serviços que são ofertados. Hoje há uma grande convergência em relação aos desafios da saúde, não só dos governadores quanto dos secretários dos partidos de oposição. Com alguns deles eu tenho identidade inclusive profissional anterior. Em São Paulo, além de ótima relação profissional com o governador Geraldo Alckmin [PSDB}, do ponto de vista político, o secretário de Saúde é professor da USP, instituição à qual eu estava ligado, então a relação é a melhor possível. Isso é bom porque acho que podemos construir um grande consenso entre a base do governo e a oposição sobre os desafios da saúde no país.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Novas realidades em questão, artigo de Roberto Abdenur, diplomata aposentado.

Lotado na embaixada em Washington entre 1973 e 1975, pude sentir de perto as então fortes contradições de interesses entre Brasil e Estados Unidos. Viria depois a vivenciar muitas delas, de forma mais intensa, como assessor na área econômica do secretário-geral e depois chanceler Saraiva Guerreiro, entre 1976 e 1984. Comércio bilateral, rodadas comerciais multilaterais, dívida externa, diálogo Norte-Sul, energia nuclear, política econômica: em muitos temas víamos os Estados Unidos como o grande adversário, o grande oponente, o principal obstáculo a nossos desígnios de desenvolvimento. Vinte anos mais tarde, em abril de 2004, após longo périplo por outras plagas, encontrei-me embaixador em Washington. Ao longo de minha gestão, até janeiro de 2007, fui testemunha de notáveis mudanças. O relacionamento bilateral, outrora tão acentuadamente assimétrico e por vezes mesmo antagônico, passava por acelerado processo de transformação. Questão antes de vida ou morte, a dívida externa havia pura e simplesmente sido por nós tirada do mapa. A vulnerabilidade externa, manifestada pela última vez em 1999, ao impacto da crise asiática, se reduzia. Divergências em torno da Alca e Doha já não mais tinham impacto sobre o conjunto do relacionamento. Tornava-se frondosa a tessitura das relações, com a criação de numerosos mecanismos de diálogo e cooperação. Uma visão recíproca, calcada em maior objetividade e pragmatismo, viabilizava inédito sentido de parceria e convergência de interesses. Etanol, energia, igualdade racial, apoio à África propiciavam oportunidades de somar esforços em temas de interesse comum, e também em favor de terceiros.

O que se vem dando é uma verdadeira mudança na natureza mesma do relacionamento Brasil-Estados Unidos. Claro está ser ele ainda marcado por acentuada assimetria quantitativa: o PIB americano, de mais de US$ 14 trilhões, é cerca de sete vezes o nosso. Mas era mais do que dez vezes maior até poucos anos atrás, e a brecha tende a diminuir com o Brasil crescendo mais rapidamente do que os Estados Unidos. Algo novo sobressai: está em curso drástica mudança na dinâmica desse relacionamento. Marca-o hoje um novo sentido de mutualidade, entrelaçamento e interdependência. Torna-se o Brasil investidor de considerável monta nos Estados Unidos. As multinacionais americanas aqui faturam alto. Geram, assim, substanciosas remessas de lucros a suas matrizes. Parte expressiva de nossas reservas de US$ 300 bilhões financia o Tesouro americano. E o relacionamento bilateral é impactado pelas profundas mudanças na inserção externa do Brasil. Pois passamos de fator de crise e instabilidade à condição de atores influentes na busca de soluções para desafios globais de variada ordem. Na economia, no comércio, nas finanças, no ambiente, no clima, em questões de paz e segurança.

Feita essa constatação, passo a algumas reflexões, à guisa de contribuição para que essa saudável evolução - que é, a rigor, também do interesse dos Estados Unidos - se consolide e amplie.

Vem se dando uma importante mudança na própria natureza e na dinâmica do relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos

Do lado brasileiro, convém deixarmos para trás a visão dos Estados Unidos como adversários, e passarmos a tê-los, em variadas situações em que isso se afigura válido, como companheiros de jornada rumo a níveis mais elevados de desenvolvimento interno e de projeção externa. Não cometamos o equívoco de achar que conquistaremos posições decisórias na reconfiguração do sistema internacional contra os Estados Unidos, ou à sua revelia. Não cabe supormos que afastamento ou contraposição gratuita sirvam a nossas conveniências de longo prazo. Regozijemo-nos com a diluição do poder no plano internacional e o surgimento de novos poderes e polos - mas não cometamos o erro de subestimar a capacidade de inovação da economia, e de renovação da sociedade americana. Alegremo-nos, por breve momento, com o fato inédito de estarmos bem quando os Estados Unidos enfrentam ainda prolongada crise - mas não celebremos as dificuldades por eles vividas, que acarretam prejuízos também a nossos interesses. Sigamos a promover a integração regional, mas não tenhamos ilusões quanto a que nossos vizinhos se disponham a fazer opção preferencial pelo Brasil em detrimento dos Estados Unidos. Nem vejamos a integração sul-americana, ou novas parcerias com outros emergentes, como alternativas a mais intenso intercâmbio com os Estados Unidos, ainda por longo tempo a maior economia, o maior mercado e a principal fonte de inovação no mundo.

Quanto aos Estados Unidos, cabe esperar que sejam capazes de avançar no reconhecimento das especificidades que conferem ao Brasil singular "soft power" no plano internacional. Foi graças a isso que ajudamos a fazer de nosso entorno região privilegiadamente pacífica e distante dos eixos de tensão geopolítica que tanto atormentam outros continentes. Não deve Washington entreter a ilusão de ver o Brasil como "aliado", disposto a alinhar-se prestimosamente com suas posturas. Não faz sentido suponham os Estados Unidos que o Brasil deva "corresponder" a preferências ou expectativas suas. As convergências, que só tendem a aumentar com as mudanças no relacionamento bilateral e as novas realidades internacionais, serão tanto mais legítimas e frutíferas quanto verdadeiramente expressivas dos melhores interesses de cada lado. Tampouco faz sentido certa tendência, neste momento visível em Washington, de "punir" o Brasil pela atitude que teve o governo anterior no caso iraniano, negando endosso a nossa postulação, hoje mais justificada do que nunca, por assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. No plano regional, é importante que os Estados Unidos não vejam a aglutinação econômica e politica da América do Sul (e, em alguns casos, da América Latina) como hostis a seus desideratos.

A visita do presidente Obama pode abrir nova e promissora etapa no relacionamento bilateral. As bases para isso foram dadas por avanços significativos, mas ainda incrementais. A hora é chegada para a consagração de uma nova parceria, lastreada em projeção de sentido verdadeiramente estratégico do potencial de benefícios que as relações bilaterais cada vez mais tendem a acarretar, para os dois povos e para o resto do mundo.

Roberto Abdenur, diplomata aposentado, integrou o serviço exterior brasileiro por 44 anos. Foi secretário-geral do Itamaraty e embaixador no Equador, China, Alemanha, Áustria e Estados Unidos

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Entrevista com Noam Chomsky: Wikileaks, crise econômica e outros temas

A estação alternativa de rádio estadunidense Democracy Now entrevistou à distância o linguista, filósofo e activista libertário Noam Chomsky, em vésperas do seu 82º aniversário Amy Goodman

Democracy Now

Numa entrevista exclusiva falamos com o dissidente político e linguista de fama mundial Noam Chomsky sobre a publicação de mais de 250.000 telegramas secretos do Departamento de Estado dos EUA, por parte da WikiLeaks. Em 1971 Chomsky ajudou o informador de dentro do governo [estadunidense] Daniel Ellsberg a publicar os “Documentos do Pentágono”, um relatório interno secreto dos Estados Unidos sobre a guerra do Vietname. Em comentário a uma das revelações, de que vários líderes árabes pressionam os EUA para atacarem o Irã, Chomsky diz: “As últimas sondagens mostram que a opinião dos árabes é que a maior ameaça na região é Israel, com 80% dos entrevistados, e em segundo lugar vêm os EUA com 77%. O Irã aparece como uma ameaça para 10%”, explica. “Isto pode não aparecer na imprensa, mais de certeza algo que os governos israelita e estadunidense, e os seus embaixadores, sabem. O que isto revela é o profundo ódio à democracia por parte dos nossos dirigentes políticos”.

Amy Goodman: Encontramo-nos com o distinto dissidente político e linguista de reputação mundial Noam Chomsky, professor emérito do Massachusetts Institute of Technology e autor de mais de cem livros, incluindo o seu mais recente Esperanças e realidades, para obter a sua reacção aos documentos da WikiLeaks. Há quarenta anos, Noam e Howard Zinn ajudaram o denunciante de dentro do governo Daniel Ellsberg a editar e publicar os “Documentos do Pentágono”, a história interna ultra-secreta dos EUA da guerra do Vietname. Noam Chomsky fala-nos a partir de Boston… Antes de falarmos da WikiLeaks, qual foi a sua participação nos “Documentos do Pentágono”? Não creio que a maioria das pessoas esteja informada sobre isso.

Noam Chomsky: Dan e eu éramos amigos. O Tony Russo também os preparou e ajudou a filtrá-los. Recebi cópias do Dan e do Tony e várias pessoas as distribuíram à imprensa. Eu fui uma delas. Então o Howard Zinn e eu, como você disse, editámos um volume de ensaios e indexámos os documentos.

Amy Goodman: Explique como funcionou. Penso sempre que é importante contar essa história, especialmente aos jovens. Dan Ellsberg – funcionário do Pentágono com acesso ao máximo segredo – saca da sua caixa de fundos essa história da intervenção dos EUA no Vietname, fotocopia-a, e então como veio parar às suas mãos? Entregou-lha directamente a si?

Noam Chomsky: Chegou-me por intermédio de Dan Ellsberg e de Tony Russo, que tinham feitos as fotocópias e preparado o material.

Amy Goodman: Foi muito editado?

Noam Chomsky: Bem, nós não modificámos nada. Não corrigimos os documentos. Ficaram na sua forma original. O que fizemos, o Howard Zinn e eu, foi preparar um quinto volume além dos quatro que apareceram, que continha ensaios críticos de muitos peritos sobre os documentos, o que significavam, etc. E um índice, que é quase imprescindível para poderem ser seriamente utilizados. É o quinto volume da série da Beacon Press.

Amy Goodman: Então foi um dos primeiros a ver os documentos do Pentágono?pentagono

Noam Chomsky: Sim, para além do Dan Ellsberg e do Tony Russo. Quer dizer, talvez tenha havido alguns jornalistas que puderam vê-los, mas não tenho a certeza.

Amy Goodman: E actualmente, o que pensa? Por exemplo, acabamos de reproduzir o vídeo do congressista republicano Peter King, que diz que se deveria declarar a WikiLeaks como organização terrorista estrangeira.

Noam Chomsky: Penso que é revoltante. Temos de compreender – e os Documentos do Pentágono são outro exemplo claro – que uma das principais razões do segredo governamental é proteger o governo contra a sua própria população. Nos Documentos do Pentágono, por exemplo, houve um volume – o volume das negociações – que poderia ter tido influência nas actividades em curso, e o Daniel Ellsberg não o revelou logo. Apareceu pouco depois. À vista dos documentos propriamente ditos, há coisas que os estadunidenses deveriam ter sabido e que outros queriam que não se soubessem. E, que eu saiba, pelo que eu próprio vi deste caso, agora é o mesmo. De facto, as revelações actuais – pelo menos as que eu vi – são interessantes, sobretudo pelo que nos esclarecem sobre como funciona o serviço diplomático.

Amy Goodman: As revelações dos documentos acerca do Irã aparecem precisamente no momento em que o governo iraniano aceitou uma nova ronda de conversações nucleares para o começo do próximo mês. Na segunda-feira, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse que os telegramas reivindicam a posição israelita de que o Irã constitui uma ameaça nuclear. Netanyahu disse: “A nossa região tem estado presa a uma narrativa que é o resultado de sessenta anos de propaganda que apresenta Israel como principal ameaça. De facto, os dirigentes compreendem que esse ponto de vista está na falência. Pela primeira vez na história existe um acordo de que a ameaça é o Irã. Se os dirigentes começarem a dizer às claras aquilo que têm dito à porta fechada, podemos realizar uma mudança radical na caminhada para a paz.” A secretária de Estado Hillary Clinton também falou do Irã na sua conferência de imprensa em Washington. Disse o seguinte:

Hillary Clinton: “Creio que não deveria ser surpresa para ninguém que o Irã é uma fonte de grande preocupação, não só para os EUA. Em todas as reuniões que tenho, em qualquer parte do mundo, aparece a preocupação com as acções e as intenções do Irã. Por isso, qualquer dos alegados comentários dos telegramas confirma que o Irã representa uma ameaça muito séria do ponto de vista dos seus vizinhos e uma preocupação muito séria muito para além da sua região. Por isso a comunidade internacional se reuniu para aprovar as sanções mais duras possíveis contra o Irã. Isso não aconteceu porque os EUA tivessem dito ‘Por favor, façam isso por nós!’. Aconteceu porque os países – depois de avaliarem as provas quanto às acções e às intenções do Irã – chegaram à mesma conclusão que os EUA: que temos de fazer o que pudermos com o fim de unir a comunidade internacional para que ela actue e impeça o Irã de se converter em um Estado com armas nucleares. De modo que, se os que lerem as histórias sobre esses, em supostos telegramas, pensarem cuidadosamente, chegarão à conclusão de que as preocupações com o Irã são bem fundadas, são amplamente partilhadas e continuarão a ser fundamento para a política que mantemos com os países que têm a mesma opinião, para impedir que o Irã adquira armas nucleares.”

 

Amy Goodman: Assim falou a secretária Hillary Clinton, ontem, numa conferência de imprensa. Qual o seu comentário sobre Clinton, sobre o comentário de Netanyahu, e o facto de Abdullah da Arábia Saudita – o rei que está a ser operado às costas em Nova Iorque – ter incitado os EUA a atacarem o Irã.

Noam Chomsky: Isso só vem reforçar o que eu disse antes, que o significado principal dos telegramas que têm sido publicados é, até agora, o que nos dizem sobre os dirigentes políticos ocidentais. Hillary Clinton e Benjamin Netanyahu de certeza conhecem as cuidadosas sondagens da opinião pública árabe. O Brookings Institute publicou há poucos meses amplas sondagens sobre o que pensam os árabes acerca do Irã. Os resultados são bastante impressionantes. Mostram que 80% da opinião árabe considera que a maior ameaça na região é Israel. A segunda maior ameaça são os EUA, com 77%. E o Irã só é referido como ameaça por 10%. No que diz respeito às armas nucleares, de um modo bastante notável, há 57% que diz que, se o Irã possuísse armas nucleares, isso teria um efeito positivo na região. Pois bem, não se trata de cifras pequenas. 80% e 77%, respectivamente, dizem que Israel e os EUA constituem a maior ameaça. 10% dizem que o Irã é a maior ameaça.

Claro que, aqui, os jornais nada dizem sobre isso – dizem-no na Inglaterra – mas é certamente algo que os governos de Israel e dos EUA e os seus embaixadores sabem muito bem. Mas não se vê aparecer uma palavra sobre isso. O que isso revela é o profundo ódio à democracia por partes dos nossos dirigentes políticos e dos dirigentes políticos israelitas. São coisas que nem referidas podem ser. Isso impregna todo o serviço diplomático. Não há nenhuma referência a isso nos telegramas.

Quando falam dos árabes referem-se aos ditadores árabes, não à população, que se opõe rotundamente às conclusões dos analistas, neste caso Clinton e os médias [a mídia]. Também há um problema menor que é o maior problema. O problema menor é que os telegramas não nos dizem o que pensam e dizem os dirigentes árabes. Sabemos o que foi seleccionado daquilo que disseram. De modo que há um processo de filtragem. Não sabemos o quanto a informação é distorcida. Mas não restam dúvidas: o que é mesmo uma distorção radical – ou nem sequer uma distorção, mas sim um reflexo – é a preocupação de que o que importa são os ditadores. A população não importa, mesmo se se opõe totalmente à política estadunidense. Há coisas semelhantes noutros sítios, como as que têm a ver com essa região.

Um dos telegramas mais interessantes foi aquele de um embaixador dos EUA em Israel para Hillary Clinton, que descrevia o ataque a Gaza – que deveríamos chamar o ataque israelo-estadunidense a Gaza – em Dezembro de 2008. Indica correctamente que houve uma trégua. Não acrescenta que durante a trégua – que de facto Israel não respeitou mas o Hamas respeitou escrupulosamente segundo o próprio governo israelita –, não foi disparado um só míssil. É uma omissão. Mas logo surge uma mentira directa: diz que em Dezembro de 2008 o Hamas retomou o disparo de mísseis e que por isso Israel teve de atacar para se defender. Acontece que o embaixador não pode deixar de saber que há alguém na embaixada dos EUA que lê a imprensa israelita – a imprensa israelita dominante – e nesse caso a embaixada tem de saber que é exactamente o contrário: o Hamas estava a pedir uma renovação do cessar-fogo. Israel considerou a oferta, recusou-a e preferiu bombardear em vez de optar pela segurança. Também omitiu que Israel nunca respeitou o cessar-fogo – manteve o cerco [a Gaza] em violação do acordo de trégua – e em 4 de Novembro, dia da eleição de 2008 nos EUA, o exército israelita invadiu Gaza e matou meia dúzia de militantes do Hamas, o que motivou trocas de tiros em que todas as vítimas, como de costume, foram palestinianas. De imediato, em Dezembro, quando terminou oficialmente a trégua, o Hamas pediu que ela fosse renovada. Israel recusou e os EUA e Israel preferiram lançar a guerra. O relatório da embaixada é uma falsificação grosseira, e é muito significativa porque tem a ver com a justificação do ataque assassino, o que significa que ou a embaixada não fazia ideia do que estava a acontecer ou estava a mentir descaradamente.

Amy Goodman: E o último relatório que acaba de aparecer – da Oxfam, da amnistia Internacional e de outros grupos – sobre os efeitos do cerco de Gaza? O que está a acontecer agora?

Noam Chomsky: Um cerco é um acto de guerra. Se alguém insiste nisso é Israel. Israel desencadeou duas guerras – 1956 e 1967 – em parte na base de que o seu acesso ao mundo exterior estava muito restringido. Esse mesmo cerco parcial que consideraram como um acto de guerra e como justificação – bem, uma entre várias justificações – para o que chamaram “guerra preventiva” ou, se preferir, profilática. Assim o entendem perfeitamente e o argumento é correcto. Um cerco é, desde logo, um acto criminoso. O Conselho de Segurança, e não só, instaram Israel a que o levantasse. Tem o propósito – como declararam os funcionários israelitas – de manter o povo de Gaza num nível mínimo de existência. Não querem gaza-1matá-los todos porque não seria bem visto pela opinião internacional. Como eles dizem, “mantê-los em dieta”.

Esta justificação começou pouco depois da retirada oficial israelita. Houve umas eleições em Janeiro de 2006 – as únicas eleições livres em todo o mundo árabe – cuidadosamente monitorizadas e reconhecidas como livres, mas tiveram um defeito. Ganharam os que não deviam ganhar. Ou seja, o Hamas, os que Israel e os EUA não queriam. Rapidamente, em muito poucos dias, os EUA e Israel impuseram duras medidas para castigar o povo de Gaza por ter votado mal em eleições livres. O passo seguinte foi que eles – os EUA e Israel – trataram, em colaboração com a Autoridade Palestiniana, de provocar um golpe militar em Gaza para derrubar o governo eleito. Fracassou. O Hamas derrotou a tentativa de golpe. Foi em Julho de 2007. Então endureceram consideravelmente o assédio. Entretanto ocorreram numerosos actos de violência, bombardeamentos, invasões, etc.

Mas basicamente Israel afirma que, quando se estabeleceu a trégua no verão de 2008, o motivo por que Israel não a observou, retirando o cerco, foi o facto de um soldado israelita – Gilad Shalit – ter sido capturado na fronteira. Os comentadores internacionais consideram isso um crime terrível. Bem, pode-se pensar o que for, a captura de um soldado de um exército atacante – e o exército estava a atacar Gaza – não chega aos calcanhares do crime que é sequestrar civis. Precisamente na véspera da captura de Gilal Shalit na fronteira, as tropas israelitas tinham entrado em Gaza, sequestraram dois civis – os irmãos Muammar – e levaram-nos para o outro lado da fronteira. Desapareceram algures no sistema carcerário de Israel, onde centenas de pessoas, talvez mil, são detidas sem acusação por vezes durante anos. Também há prisões secretas. Não sabemos a que se passa nelas. Isto é, por si só, um crime muito pior do que o sequestro de Shalit. De facto, poder-se-ia argumentar que houve uma razão para se ter silenciado o facto. Israel, durante anos, de facto durante décadas, tem vindo a comportar-se assim: raptos, capturas de pessoas, sequestros de barcos, assassinatos, levar gente para Israel por vezes como reféns durante anos e anos. De modo que isso é uma prática habitual; Israel pode fazer o que entende. Mas a reacção, aqui e no resto do mundo, ao sequestro de Shalit – que não é um sequestro, não se sequestra um soldado, mas captura-se – é considerá-lo um crime horrendo e uma justificação para manter o cerco e assassinar… uma desgraça.

Amy Goodman: Então temos a Amnistia Internacional, a Oxfam, a Save The Children e outras dezoito organizações de ajuda a instarem Israel para que levante, sem condições, o bloqueio a Gaza. E a WikiLeaks publica um telegrama diplomático estadunidense – transmitido ao Guardian pela WikiLeaks – que conta: “Directiva nacional de recolha de informações humanas: Pede-se ao pessoal dos EUA que obtenha pormenores de planos de viagem, como itinerários e veículos utilizados por dirigentes da Autoridade Palestiniana e membros do Hamas”. O telegrama pede: “Informação biográfica, financeira, biométrica de dirigentes e representantes mais importantes da A.P. e do Hamas, incluindo a Jovem Guarda, dentro de Gaza e da Cisjordânia, e fora”, diz.

Noam Chomsky: Isso não deveria ser uma surpresa. Contrariamente à imagem que é projectada neste país, os EUA não são um intermediário honesto. São participantes, e participantes directos e cruciais, nos crimes israelitas, tanto na Cisjordânia como em Gaza. O ataque a Gaza foi um caso claro: utilizaram armas estadunidenses, os EUA bloquearam as tentativas de cessar-fogo e deram apoio diplomático. O mesmo vale para os crimes diários na Cisjordânia, e não devemos esquecê-los. Na realidade, a [ONG] Save The Children informou que na área C – a parte da Cisjordânia controlada por Israel – as condições são piores do que em Gaza. Também isto acontece porque há um apoio crucial e decisivo dos EUA, tanto no plano militar como no económico; e também ideológico – o que tem a ver com a distorção da situação, como acontece também, dramaticamente, com os telegramas.

O próprio cerco é, em si mesmo, simplesmente criminoso. Não somente bloqueia a ajuda desesperadamente necessária como, além disso, afasta os palestinianos da fronteira. Gaza é um local pequeno e superpovoado. E os tiros e os ataques israelitas afastam os palestinianos do território árabe junto da fronteira e também impõe aos pescadores de Gaza o limite das águas territoriais. São forçados por canhoneiras israelitas – é tudo o mesmo, claro está – a pescar junto à costa onde a pesca é quase impossível porque Israel destruiu os sistemas eléctricos e de saneamento e a contaminação é terrível. É apenas um estrangulamento para castigar as pessoas por estarem ali e por insistirem em votar “mal”. Israel decidiu: “Não queremos mais isto. Livremo-nos deles.”

Também deveríamos lembrar que a política israelo-estadunidense – desde Oslo, desde o começo dos anos 1990 – foi osloseparar Gaza da Cisjordânia. É uma violação directa dos acordos de Oslo, mas foi sendo implementada sistematicamente e teve muitas consequências. Significa que quase metade da população palestina ficaria à margem de qualquer possível acordo político a que se pudesse chegar. Também significa que a Palestina perde o seu acesso ao mundo exterior. Gaza deveria ter aeroportos e portos marítimos. Até agora Israel apoderou-se de cerca de 40% do território da Cisjordânia. As últimas ofertas de Obama oferecem-lhe ainda mais, e certamente os israelitas planeiam apoderar-se de mais. O que resta são pedaços de território cercados. É o que o planificador Ariel Sharon chamou bantustões. E estão também na prisão, enquanto Israel se apodera do Vale do Jordão e expulsa os palestinianos. Todos esses são crimes de uma só peça. O cerco de Gaza é particularmente grotesco dadas as condições de vida a que obriga as pessoas. Quero dizer, se uma pessoa jovem em Gaza – estudante em Gaza, por exemplo – quer estudar numa universidade da Cisjordânia, não pode fazê-lo. Se uma pessoa de Gaza precisa de um estágio ou de um tratamento médico sofisticado num hospital de Jerusalém Oriental, não pode lá ir! E não deixam passar os medicamentos. É um crime escandaloso, tudo isso.

 

Amy Goodman: Na sua opinião, que deveriam fazer os EUA neste caso?

Noam Chomsky: Aquilo que os EUA deveriam fazer é muito simples: deveriam unir-se ao mundo. Quero dizer que supostamente existem negociações. Tal como são apresentadas aqui, o quadro tipicamente traçado é de que os EUA são um intermediário honesto que procura unir os opositores recalcitrantes – Israel e Autoridade Palestiniana. Isso não passa de uma farsa.

Se houvesse negociações sérias, seriam organizadas por uma parte neutral e os EUA e Israel estariam de um lado e o mundo estaria do outro. Não é um exagero. Não deveria ser segredo que desde há muito tempo existe um consenso internacional completo para uma solução diplomática, política. Todos conhecem as linhas básicas. Alguns detalhes, sim, poderão ser discutidos. [Nesse consenso] incluem-se todos, excepto os EUA e Israel. Os EUA têm vido a bloquear a solução ao longo de 35 anos, com derivas ocasionais, e breves. [Esse consenso] inclui a Liga Árabe. Inclui a Organização dos Estados Islâmicos, que inclui o Irã. Inclui todos os protagonistas relevantes com excepção dos EUA e de Israel, os dois Estados que o recusam. De modo que, se houvesse alguma vez negociações sérias, é assim que seriam organizadas. As negociações que há chegam apenas ao nível da comédia. O tópico que está a ser discutido é uma nota de rodapé, uma questão menor: a expansão dos colonatos. Claro que é ilegal. De facto, tudo o que Israel está a fazer em Gaza e na Cisjordânia é ilegal. Nem sequer tem sido polémico, desde 1967 (…)

Amy Goodman: Quero ler-lhe agora a mensagem-twitter de Sarah Palin – a ex-governadora do Alaska, claro, e candidata republicana à vicepresidência. É o que ela colocou no twitter sobre a WikiLeaks. Rectifico, foi colocado no Facebook. Ela diz: “Primeiro, e antes de mais, que passos foram dados para impedir que o director da WikiLeaks, Julian Assange, distribuísse esse material confidencial altamente delicado, sobretudo depois de ele já ter publicado material, não uma vez mas duas, nos meses anteriores? Assange não é um jornalista, é-o tanto como um editor da nova revista da al-Qaeda em inglês “Inspire”. É um agente anti-EUA que tem sangue nas mãos. A sua anterior publicação de documentos classificados revelou aos talibãs a identidade de mais de 100 das nossas fontes afegãs. Porque não persegui-lo com a mesma urgência com que perseguimos os dirigentes da al-Qaeda e dos talibãs?” Que lhe parece?

Noam Chomsky: É exactamente o que se esperaria de Sarah Palin. Não sei o que ela entende ou não, mas acho que devemos dar atenção ao que nos dizem as revelações [da WikiLeaks]… Talvez a revelação, ou referência, mais dramática seja o ódio amargo à democracia revelado tanto pelo governo dos EUA – Hillary Clinton e outros – como pelo corpo diplomático. Dizer ao mundo – bem, de facto estão a falar lá entre eles – que o mundo árabe considera o Irã como a principal ameaça e que deseja que os EUA bombardeiem o Irã, é extremamente revelador, sabendo eles, como sabem, que cerca de 80% da opinião árabe considera os EUA e Israel como a maior ameaça, que 10% consideram o Irã como a maior ameaça, e que uma maioria de 57% pensa que a região teria a ganhar se o Irã tivesse armas nucleares, que funcionariam como um dissuasor. Isso, eles nem sequer o referem. Tudo o que referem é apenas o que foi dito pelos ditadores árabes, os brutais ditadores árabes. Isso é que conta.

Não sabemos até que ponto é representativo do que dizem, porque ignoramos qual é o filtro. Mas isto não importa muito. O aspecto mais importante é que [para eles] a população é irrelevante. Só interessam as opiniões dos ditadores que apoiamos. Se nos apoiam, então eles são o mundo árabe. É um quadro bem revelador da mentalidade dos dirigentes políticos dos EUA e, pode-se presumir, da opinião das elites. A avaliar pelos comentários que têm aparecido aqui. E é também o modo como tem sido apresentado na imprensa. O que pensam os árabes, isso não interessa.

Tradução do inglês: Passa Palavra

Fonte: Brasil de Fato

Texto: / Postado em 16/01/2011 ás 08:46

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entrevista de Marco Aurélio Garcia à Folha de São Paulo

MARCO AURÉLIO GARCIA

FSP 23/11/2011
Brasil não vai ser alto-falante sobre direitos humanos

Assessor de Dilma Rousseff afirma que o tema será definido na prática, sem criar "tribunal de opiniões"

CLAUDIA ANTUNES
ENVIADA A BRASÍLIA

Os responsáveis pela política externa do governo Dilma ainda tateiam para pôr em prática a orientação da presidente de dar prioridade aos direitos humanos sem agir de modo seletivo, revela entrevista à Folha de Marco Aurélio Garcia, assessor internacional do Planalto.
O Brasil vai "trabalhar melhor as coisas" nesse tema, mas não será um "alto-falante giratório que vai denunciar todas as violações" nem um "tribunal de opiniões" sobre países árabes e africanos.
No Planalto desde 2003, Garcia elevará sua equipe de 5 para 7 pessoas, para ir além do dia a dia e ter uma "sofisticação maior na reflexão".

Como será o estilo Dilma de diplomacia presidencial? Marco Aurélio Garcia - Será, à sua maneira, um estilo muito ativo. Ela tem um interesse muito grande pelos temas internacionais. A Dilma tem uma gigantesca curiosidade intelectual.


Folha - No Haiti, há pressão de EUA e França para que o presidente Préval aceite o relatório da OEA (Organização dos Estados Americanos), que concluiu que o candidato governista deve ficar fora do 2º turno. Qual é a posição brasileira?
França e EUA podem fazer declarações, mas quem está no Haiti somos nós. Nosso embaixador [Igor Kipman] tem conversado com o governo e ponderado a necessidade de chegarmos a uma solução. Essa solução passaria pela aceitação do relatório.
Mas o relatório não pode ser entendido como coisa imposta. O Haiti tem instituições, e a primeira delas é o Conselho Eleitoral. Temos que pensar com base no respeito à soberania nacional.


O Brasil não tem reservas sobre o conteúdo do relatório?
As informações que nós temos são que o relatório é um retrato bastante aproximado [da votação].


Na nota de Dilma em resposta à carta da parlamentar iraniana, foi dito que o governo tratará os direitos humanos de maneira prioritária, mas de forma não seletiva e não discriminatória. Como será na prática?
A prática é que vai nos mostrar. Temos que trabalhar com cuidado.
A ênfase que a presidenta deu não significa que ela está propondo transformar o Brasil num alto-falante giratório que vai denunciar todas as violações todo o tempo com igual intensidade.
No dia em que ela me convidou para permanecer nas funções, disse: vamos denunciar isso [apedrejamento de mulheres no Irã], mas vamos denunciar Guantánamo, Abu Ghraib [prisão americana no Iraque em que presos foram torturados].


O Brasil vai se pronunciar sobre esses casos?
Ela [Dilma] mencionou concretamente que tinha ficado contrariada com o voto na Terceira Comissão [da ONU, quando o Brasil se absteve em resolução que condenou violações no Irã]. Vamos ter, e isso é um debate que já existia no Itamaraty, de fazer com que as coisas sejam melhor trabalhadas.
Alguns países, porque têm um critério seletivo, apresentam um prato pronto contra determinados países, não por acaso sempre do Sul do mundo.

A questão é como o Brasil vai lidar com isso.
Uma questão é o próprio procedimento na apresentação dessas moções. Se alguém quer fazer propaganda, politização seletiva, não é um bom caminho.
Podemos pensar em negociar uma resolução que seja equilibrada ou apresentar uma outra.


O tema deve surgir na Aspa (Cúpula América do Sul-Países Árabes), em fevereiro. Tivemos o caso da Tunísia, com manifestantes mortos. O Brasil soltou uma nota branda.
Se você acha que nós vamos transformar as reuniões da Aspa num tribunal dos países árabes, é melhor não realizar as reuniões.
Se fizermos isso, e, depois, na reunião América do Sul-África, fizermos juízo sobre os governos da África, é melhor constituirmos um grande tribunal de opiniões.
No caso da Tunísia, a prudência das notas correspondia à flutuação da situação.


A Turquia sediou nova reunião entre o Irã e as potências. O Brasil se manterá ativo na mediação da questão nuclear iraniana?
A atividade da Turquia, que tem sido discutida e acordada com o Brasil, está se dando pela cessão do território. A Turquia não participa da negociação. Acho até que seria positivo que Turquia e Brasil participassem.


Dilma foi convidada a visitar o Irã. Ela vai?
Ela já foi convidada a x países. Estamos avaliando as viagens de primeiro ano, e está mais concentrado na América do Sul, na China, nos EUA. Ela vai à Bulgária, talvez na ida vá à Turquia.


O que há de novidade na pauta com a Argentina, que Dilma visita no dia 31?
Há uma discussão de acelerarmos a integração produtiva em alguns setores, entre os quais o automotriz, onde nos dois países houve certa desnacionalização da produção de autopeças.
A segunda questão está ligada ao pré-sal. Queremos agregar valor ao petróleo e teremos de desenvolver uma parafernália industrial gigantesca na região. Queremos que a América do Sul seja um polo deste novo mundo multipolar que se forma.


A presidente conversou na posse com o colombiano Juan Manuel Santos sobre o ingresso no Mercosul. Isso se confirma?
Vou à Colômbia em fevereiro. Esse tema está na agenda há tempos. O presidente Santos dá a impressão de querer mudar radicalmente a agenda da Colômbia.


Nos telegramas do WikiLeaks, a embaixada americana fala que o Brasil tem uma "necessidade quase neurótica" de ser reconhecido como igual. Os EUA levam o Brasil a sério como o país gostaria de ser levado?
Não sei se levam e não estou preocupado. Há, em alguns casos, uma enorme distorção na preparação desses informes. Os meus são melhores, entre outras coisas porque despossuídos desse psicologismo vulgar.


O embaixador Thomas Shannon fala em levar adiante uma agenda positiva, por exemplo em biocombustíveis. Como isso caminha?
Parou um pouco, e tem de ser retomado. Mas, quando falo em agenda positiva no sentido de coisas concretas, não quero dizer que vamos esquecer problemas de natureza política.
Temos problemas políticos a discutir, entre eles o relacionamento com a América do Sul.
Por que essa relação tem de estar sempre mediada por ideólogos? Por que a política externa americana tem que ser tão ideológica? A nossa é muito mais realista.


A China é acusada de pretender uma relação neocolonial com África, América Latina...
Uma relação neocolonial só se estabelece se colonizador e colonizado estão de acordo.
Da mesma forma que China e EUA usam instrumentos de política interna que têm incidência sobre a política externa, por exemplo no câmbio, nós podemos fazê-lo. A diferença hoje é que não vem ninguém dizer como é que tem que ser nossa política macroeconômica. Nós decidimos.